MAB

Pray for Mariana

Por: Ana Luiza Bongiovani, Bruce Lourenço, Daniele Franco, Debora Vidal, Guilherme Cândido e Thaís Pereira (Conteúdo colaborativo para disciplina Jornalismo Investigativo)

Nos morros de paralelepípedo, por nós só visitados em época de carnaval ou há anos com a turma de colégio, não ouvimos as risadas e conversa cordial típica do centro de Mariana. A rodoviária, normalmente cheia aos finais de semana com o movimento de estudantes e turistas, estava quase deserta. A cidade histórica, nove dias após o distrito de Bento Rodrigues ter sido arrasado pelo mar de lama resultante do rompimento da barragem da Mineradora Samarco, parecia apenas um retrato pálido do que sempre fora.

Os moradores, com seus semblantes entristecidos de quem viu muitas vidas e histórias serem carregadas na onda de lama, ainda assim nos receberam de braços abertos. No centro da cidade, entre grandes grupos dispostos a contribuir com as 150 pessoas abrigadas no hotel Providência, encontramos Thiago Alves, do Movimento Atingidos por Barragens (MAB): “Nesse momento, nós estamos focando nosso trabalho no contato direto com os atingidos, na sua organização direta porque quem tem que ser protagonista do processo de luta por direitos são os atingidos, são as mulheres atingidas, a juventude.”, disse. Quando questionado sobre o funcionamento do Movimento, Thiago relata não ser sua primeira vez voluntariando em Mariana: “Nossa presença aqui nessa região já é de muitos anos, principalmente acompanhando situações dos atingidos por hidrelétricas aqui nessa região e também debatendo mineração e outras questões.”.

Enquanto acompanhávamos a reunião de voluntários, debruçada na janela, dona Terezinha dos Santos (73) observava tudo com um olhar esperançoso e atento. Moradora de Mariana há anos, a aposentada diz como foi receber a notícia da tragédia nos distritos próximos: “É muito triste ver isso né? Tá todo mundo triste da vida, a cidade perdeu a graça. Meus três filhos trabalham lá na mineradora e graças a Deus eles estão bem. Infelizmente, uns amigos nossos tiveram casas atingidas e estão aí no hotel, mas tá todo mundo com saúde.” Em apenas alguns minutos enquanto conversava com a gente, dona Terezinha caiu em lágrimas ao falar sobre a solidariedade presenciada por ela: “Tá todo mundo unido e ajudando. Todo o dia eu vejo chegando carros com doações, e é muito trem que chega. A gente vai se recuperar em breve, tem mais Deus pra dar que o diabo pra carregar”, finaliza.

Passava das três da tarde de quinta-feira (5) quando a barragem do Fundão se rompeu. A falta de sirenes e alarmes limitou o alerta a população de Bento Rodrigues a somente ligações telefônicas. Conforme o aviso se espalhava pela cidade, pessoas saíam de casa somente com a roupa do corpo, a escola era esvaziada às pressas, o desespero aumentava, ouvia-se choro em meio a toda correria. Foi quando, por volta de quatro da tarde, o “tsunami” formado por toneladas de detritos de mineração atingiu a pequena cidade, arrastando não só casas, animais, carros e pessoas, mas também histórias.

Após devastar Bento Rodrigues, a onda de detritos desceu acompanhando o trajeto dos rios Gualaxo do Norte e Carmo, atingindo os municipios de Barretos e Barra Longa. Poucos dias depois, a enxurrada de lama chegou ao Rio Doce, um dos maiores do estado, matando peixes, afetando a captação de água potável e o funcionamento de hidrelétricas. Na última segunda-feira (16), 11 dias após o desastre, a lama chegou ao Espírito Santo por volta das cinco e vinte da tarde, pelo município de Baixo Guandu. Os municípios de Colatina e Aimorés seriam os seguintes a serem atingidos. A onda destruiu em segundos o que todas estas pessoas levaram anos para construir, carregou consigo a vida de inocentes.

As consequências desta tragédia podem ser ainda maiores, já que, além de ter atingido o Rio Doce, a lama deverá afetar uma área de 9km de mar no Espírito Santo, podendo prejudicar por muitos anos a vida marinha do local. Em contrapartida, a Justiça Federal determinou, quinta-feira (19), que a Samarco impeça a chegada da lama ao oceano, sob uma ameaça de multa de dez milhões de reais por dia. No dia anterior à determinação judicial, porém, a empresa já havia começado a levantar uma barreira de 9 mil metros de extensão na costa capixaba, usando de tecnologias geralmente empregadas em casos de vazamento de óleo em alto mar – tudo em uma tentativa de amenizar os impactos na fauna e flora existentes na foz do rio Doce.

A empresa se pronunciou alegando a ausência de materiais tóxicos, porém, especialistas afirmam que os rejeitos expulsos após o rompimento da barragem podem permanecer no meio ambiente durante anos. No entanto, até o presente momento, nenhuma análise toxicológica foi realizada.

Na Lama

Funcionários da Samarco podem ser avistados por toda a cidade, envolvidos na realocação das vítimas e controlando o acesso às áreas mais atingidas. Muitos membros da imprensa alegam não terem sido autorizados a chegar aos locais por impedimentos da mineradora, e grande parte dos atingidos reclama da falta de informações concretas sobre a situação. Nossa equipe sentiu-se “vigiada” quando pessoas uniformizadas passavam dentro de carros com a logomarca da empresa e passaram próximas ao local de entrevista, e não recebemos autorização para visitar as dependências do Hotel Providência, sob o pretexto de estar ocorrendo entrega de doações. A estrada para Bento Rodrigues também está sob forte vigilância – a Policia Militar age em conjunto com a Mineradora na contenção e bloqueio nos acessos para a cidade. A omissão de noticias referentes aos desaparecidos e a busca por corpos, são outras reclamações frequentes por parte dos moradores e desabrigados.

Além da polêmica atualmente na mídia sobre as doações de campanha feitas pela Vale (que, em conjunto com a australiana BHP, forma o capital da Samarco) e o alegado descumprimento da mineradora de regras que regulam a construção e manutenção de barragens no Brasil, o crime ambiental perpetuado ainda trouxe à tona novos problemas de logística e comunicação no âmbito interno das multinacionais. Governador Valadares, cidade de quase 250 mil habitantes localizada no Vale do Rio Doce, teve o seu abastecimento usual de água potável interrompido pela contaminação do rio que dá nome à região geográfica, e a Vale, ao realizar o transporte emergencial de água através da linha férrea que corta o estado mineiro, acabou por entregar quatro vagões contaminados com querosene, tornando 250 mil litros de água antes potável, imprópria para o consumo humano.

Do caos à esperança

Apesar do clima de desolação que corre entre os moradores, há quem acredite em um novo recomeço para as cidades afetadas. Um exemplo é José Arlindo Severo, ex-morador do distrito de Paracatu que perdeu tudo durante a tragédia. Casado e pai de dez filhos, o desabrigado fala sobre a expectativa de voltar para o seu lar: “Nós queremos fazer um arraial em Paracatu mesmo, só que em outro lugar. Porque lá onde a enchente passou não tem jeito de fazer mais nada não. Acabou com tudo mesmo.” Quando questionado sobre o retorno da Samarco, José diz com grande pesar: “Trouxeram a gente pra cá e tão pagando nossas contas no hotel, mas não teve ninguém da Samarco falando comigo. O jeito é esperar o dia que vai acontecer, não é? Essa reunião eu sei que é quarta-feira. Aí eu vou ver o dia que vai ser e o que o pessoal vai resolver com isso. Eu não aguento ficar aqui na cidade não. Vou esperar porque quero um terreno para construir minha casa nova, um lote bom”, finaliza.

Entre lágrimas e lamentos, as doações não param de chegar. Com o auxilio das redes sociais, grupos de outras cidades têm se organizado para levar doações até a cidade, como relata Giovani Gomes, voluntário do grupo independente Águias de Cristo, que reveza diariamente com outras igrejas a assistência aos desabrigados. “Muitas pessoas estão doando, toda hora chegam carros de Belo Horizonte, de Ouro Preto, várias regiões de Minas, inclusive do Rio de Janeiro”, destaca Giovani. Ele também ressalta os principais itens de primeira importância para doação: “eles estão necessitados de roupa íntima, água, alimento e materiais de limpeza.” O sentimento de impunidade por parte do governo também foi lembrado: “Agora o que nós esperamos é uma resposta das companhias responsáveis e que arquem com todos os prejuízos que esta tragédia ocasionou ao nosso meio ambiente, nossa economia, cultura e turismo. Espero que vire uma grande notícia e não fique apenas na manchete”.

Seja voluntário, desabrigado ou turista, no final, todos só querem voltar a ter paz e segurança entre os morros que sempre foram cartão postal de Mariana.

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